terça-feira, 8 de novembro de 2011

Documentário mostrará vida e obra do folclorista areiabranquense Deífilo Gurgel

Qual o melhor adjetivo para definir Deífilo Gurgel? A obra poética, o apego pela simplicidade e o acervo documental na seara do folclore caminham ao lado dos seus 85 anos. Talvez Deífilo esteja melhor representado em seus versos, nos mestres da cultura popular que estudou e descobriu. Ou quem sabe, nas palavras dos nove filhos, da esposa sempre namorada, dos amigos e admiradores. São muitos os caminhos para se chegar a Deífilo Gurgel. Por isso, o documentário sobre a sua vida será intitulado apenas Deífilo. Assim mesmo, com um “ponto” no final para abrir todas as possibilidades imaginativas para definição de quem ele é e representa para a cultura.
O Folclorista areiabranquense terá vida e obra retratada em documentário
A ideia do documentário foi levantada pelo filho Carlos Gurgel. Após a inércia de alguns profissionais do audiovisual convidados para o projeto, o cineasta Fábio DeSilva deu a atenção merecida à ideia e já iniciou a produção. No sábado passado foi gravado depoimento de mais de uma hora com o protagonista. Deífilo Gurgel esperou quase quatro horas entre montagem de cenário e gravação. O sacrifício valeu à pena. Deífilo contou da infância em Areia Branca junto à gente simples da cidade, a adolescência e o encantamento poético em Caraúbas, até a vinda a Natal e o convite do então diretor da Fundação José Augusto, João Faustino, para chefiar o departamento de cultura.
Daí em diante foram 41 anos de pesquisa teórica e campal pelos interiores e rincões potiguares. Se Cascudo precisou de um puxão de orelhas do colega folclorista Mário de Andrade, que recomendou ao mestre a sair da rede e dos livros para botar a cabeça fora da janela pra ver o que acontece na rua e entender melhor a sua gente, Deífilo iniciou seus trabalhos já com o pé na estrada. E veio desse trabalho externo, durante dias longe da família e sob o sol sertanejo, a maior riqueza entregue por Deífilo ao folclore potiguar e nacional. Chico Antônio, Chico Daniel e Dona Militana são “apenas” a “santíssima trindade” do folclore local. Deífilo foi mais longe…
Folclore mapeado
O documento dos inúmeros grupos folclóricos e seus mestres detentores de uma riqueza quase perdida, abandonada, irreconhecida, talvez seja tão valioso quanto as figuras emblemáticas que hoje povoam o imaginário do folclore local. Os Caboclinhos de Ceará-Mirim, o Fandango e Chegança de Canguaretama, o Maneiro Pau de Portalegre, os bois de São Gonçalo do Amarante são alguns grupos folclóricos legítimos descobertos por Deífilo.
“Ausência de registro seria um pecado histórico”
Carlos Gurgel trocou ideias com Fábio DeSilva após assistir ao documentário Sangue do Barro, dirigido por Fábio e Mary Land Brito. A exibição foi no Barracão do Clowns, em maio deste ano. “Surgiu um interesse mútuo, passamos a nos reunir e organizar a feitura do projeto”, disse. “Seria um pecado histórico contra a cultura potiguar a ausência desse registro”, comentou Fábio.
O documentário terá 52 minutos ou 1h10min. “A probabilidade maior é dos 52 minutos – o padrão internacional para TV. Nossa intenção é exportar esse material para tornar a figura de Deífilo conhecida lá fora. Se ficar em 1h10 se transforma em um longa-metragem. É menos viável à circulação, mas há essa possibilidade”, adiantou.
Todos os depoimentos serão gravados em alta definição. E serão mesclados às imagens de arquivo ou de apoio em VHS. “Minha inspiração é o documentário Santiago, de João Moreira Salles, mas tenho experimentado fórmulas que nunca usei, a exemplo da fala vazada do interlocutor durante a entrevista, usada com propriedade por Eduardo Coutinho em seus trabalhos. Estou brincando com mídias diferentes”.
Fábio ressaltou ainda que a ideia é inserir o projeto na Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo. “Mas Isaura Rosado (secretária extraordinária de Cultura – enaltecida por Deífilo durante o doc) sinalizou patrocínio”, disse o diretor. E concluiu: “Se eu resumir em uma palavra esse projeto, citaria Amacord, que no dialeto da cidade italiana de Rimini, quer dizer Recordação”.
“Ninguém pode cobrar mais nada de papai”
O folclorista popular Deífilo Gurgel é areiabranquense
“Natal é uma cidade sem memória, sem consideração com quem produz e deixa algo de importante para a cidade. Não deixarei que façam com papai a mesma coisa. Ele merece esse registro pelo que fez. Ninguém pode cobrar mais nada dele. E por isso vou me dedicar de corpo e alma a esse projeto”, disse o filho e poeta Carlos Gurgel.
Gurgel conta que a preocupação de Deífilo no momento é a publicação do livro sobre o Romanceiro Potiguar – um trabalho de uma década e talvez o mais completo registro do romanceiro no Brasil. “Ele me perguntou se ainda estará entre a gente quando o livro for publicado. Mas ele está com dificuldade de escrever a dedicatória, com medo de esquecer alguém”, conta Gurgel.
Além da orientação de Carlos Gurgel, da direção e roteiro de Fábio DeSilva, o documentário conta ainda com a produção de Keila Sena, co-direção de Mary Land Brito e som e iluminação dos estúdios de Jota Marciano.
Com informações do Diário de Natal

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